Cinema e Ditadura e seus atravessamentos

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Joana D`Arc Fernandes Ferraz – Professora Associada do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da UFF e membro da diretoria colegiada do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ.

De que recursos dispõe uma pessoa ou um coletivo para afirmar um modo próprio de ocupar o espaço doméstico, de cadenciar o tempo comunitário, de mobilizar a memória coletiva, de produzir bens e conhecimento e fazê-los circular, de transitar por esferas consideradas invisíveis, de reinventar a corporeidade, de gerir a vizinhança e a solidariedade, de cuidar da infância ou da velhice, de lidar com o prazer ou a dor? (PELBART, 2008, p.36)

O Cinema Marginal põe a descoberto o poder o Estado. Convida a vida coletiva a criar possibilidades de se reinventar. O marginal, o cômico, o irônico, o dolorido, o cruel, o cínico, dentre tantos outros, são personagens que povoam as telas de cinema, constituindo-se em personagens-denúncia. A democracia, os fascismos, as ditaduras e a força dos movimentos de resistência são trazidos para as lentes do cinema, a fim de nos alertar, nos interrogar, nos advertir, povoando o nosso imaginário. Em sua função mágica, o cinema nos convida ao experimento, à (re)existência, à vida, atravessada pelo acontecimento.

São estes elementos que compõem a pedagogia cinematográfica. Ao construírem o “todo”, não como um conjunto composto de partes, mas como atravessamentos simbólicos em que cada segmento da cena, por mais ínfimo que seja, por mais delicado e sensível que sejam, apresenta-se como possibilidade de comunicar-se infinitamente com outros segmentos, promovendo um pensar constante sobre nós, sobre a vida, sobre nossos aprisionamentos e nossas resistências. Imagens que nos convidam ao encontro com o espanto, a perplexidade e o encantamento produzido pela Sétima Arte, afrontam, muitas vezes, o poder opressor do Estado.

No cinema, a ditadura empresarial-militar brasileira tem sido bastante explorada. Embora seja um período bastante recente da nossa história, o silêncio e o esquecimento do Estado são visíveis, principalmente, no que se refere à informação para as novas gerações sobre este momento de terror. Muitas questões que não foram discutidas, debatidas, refletidas nos bancos escolares assombram o Estado por meio da memória fílmica.

Esta memória fílmica abarca desde trajetórias individuais como os filmes sobre Lamarca, Marighella, Frei Tito, Iara e Sônia Angel (dentre tantos outros) até as memórias das organizações de resistência, de famílias, de crianças, gays, negros, indígenas, operários e muito mais. Pelo cinema, as memórias da ditadura empresarial-militar brasileira (1964-1985), são fundamentais para construção de uma sociedade crítica da violência promovida pelo terror do Estado nos dias atuais. Além disso, não passam despercebidos pela arte cinematográfica diferentes modos sensíveis de nos sinalizar sobre as formas cada vez mais sofisticadas de crueldade e de violência extrema do Estado.

A linguagem cinematográfica nos reporta a um tempo sem horas, sem ponteiros e sem medida, enfim, a um Tempo Marginal. Trata-se do tempo da duração com seus modos infinitos de sensações, experimentações, agrupadas ou descontínuas de tempos e movimentos, que podem possuir uma função legível mais além de sua função visível, que nos sensibiliza e nos interroga. Até mesmo o “fora de campo remete ao que não se ouve nem se vê e, sem dúvida, está perfeitamente presente” (DELEUZE, 2013, p. 32, , trad. nossa)1.

Que as mínimas formas de sentir, as mais elementares, nos atravessem neste encontro com o Cinema Marginal.

Referências Bibliográficas:

DELEUZE, Gilles. La Imagen-movimiento: estudios sobre cine. Buenos Aires: Paidós, 2013.

PELBART, Peter Pál. Poder sobre a vida, potência da vida. Rev. Lugar Comum – Estudos de Mídia, Cultura e Democracia, Rio de Janeiro, n.17, Set. 2001- Abril 2002. Disponível em: <http://uninomade.net/wp-content/files_mf/1324475459MIOLODIAGRAMADONUMERO17.pdf > Acesso em 20/08/2017.

1 “El fora de campo remire a lo que no se oye ni se ye, y sin embargo está perfectamente presente.” (DELEUZE, 2013, p. 32)

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